A partir do Uruguai, ele coordena um negócio que se estende do México à Argentina e que atende milhares de associados do maior sistema de intercâmbio de férias do mundo.

Nesta conversa para Zona de Charlas, Andrés revisita os motivos que explicam por que a RCI escolheu o Uruguai há mais de duas décadas, o peso estratégico de operar a partir de Zonamerica e como a estabilidade, o talento bilíngue e o know-how acumulado transformaram o país em um hub regional competitivo e confiável para uma multinacional global.

Andrés, você tem uma carreira com forte presença internacional antes de chegar à RCI. Como foi esse percurso?

Eu diria que minha carreira foi se formando a partir de decisões que, no momento, pareciam pequenas, mas que acabaram abrindo portas para lugares que eu nunca tinha imaginado. Comecei estudando Administração de Empresas no Uruguai, mas muito cedo senti curiosidade por outras formas de aprender e trabalhar. Isso me levou a estudar em uma universidade nos Estados Unidos e a participar de experiências de intercâmbio que me marcaram profundamente.

A primeira grande etapa profissional foi na Maersk, dentro de um programa global de jovens líderes. Ali tive a oportunidade de rodar por áreas muito diferentes: finanças, operações portuárias, logística, atendimento ao cliente, vendas. Depois vieram experiências ainda mais desafiadoras: dois anos trabalhando na Dinamarca, quando o e-commerce estava apenas começando a se delinear; vários anos na Espanha desenvolvendo um projeto para centralizar os call centers em Madri e depois trabalhando para toda a região Ibérica, França e o Magrebe; e, por fim, três anos liderando diretamente a área de atendimento ao cliente para Marrocos, Argélia e Tunísia.

Esses treze anos no exterior, convivendo com culturas, ritmos e expectativas tão diferentes, me deram uma visão muito mais ampla do mundo operacional. E, acima de tudo, me ensinaram a tomar decisões apoiadas em experiências diversas. Quando hoje surge um desafio, inevitavelmente volto a algo que vivi em Madri, Copenhague ou Casablanca. Essa mistura te acompanha para sempre.

E como você retorna finalmente ao Uruguai e chega à RCI?

Meu retorno definitivo foi em 2016. Naquele momento, eu buscava uma empresa onde pudesse integrar toda essa experiência internacional, e a RCI surgiu como uma oportunidade ideal em 2019. É uma operação complexa, com interação diária com diferentes mercados e culturas, e com uma estrutura regional que desafia o tempo todo. Desde o primeiro dia senti que poderia contribuir e, ao mesmo tempo, continuar aprendendo. Recentemente completei seis anos na companhia, e tem sido um período muito enriquecedor.

Para quem não conhece o negócio, como funciona a RCI e qual é o papel do Uruguai na operação regional?

A RCI é uma empresa norte-americana com mais de 50 anos de história e pioneira no intercâmbio de tempo compartilhado. O modelo é simples, mas tem muita sofisticação por trás: uma pessoa compra um tempo compartilhado — uma semana ou um sistema de pontos — e, em vez de usar sempre a mesma propriedade, pode depositá-lo e acessar milhares de opções em outros destinos dentro da rede global da RCI. Nós somos a ponte entre esse associado e a experiência de viajar para outro lugar do mundo.

A partir do Uruguai, gerenciamos toda a operação para a América Latina. Isso envolve muitas etapas: desde a chamada de boas-vindas ao novo associado que acaba de adquirir sua filiação, até o acompanhamento quando ele quer fazer sua primeira troca ou adquirir semanas adicionais para viajar mais. Também conduzimos campanhas de comunicação, gerenciamos a base de associados, resolvemos consultas, administramos renovações e coordenamos a relação com hotéis e empreendimentos turísticos em diversos países.

É uma operação grande e dinâmica, que exige compreender as particularidades de cada mercado — México, Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela — e manter um padrão de serviço muito elevado. E tudo isso é coordenado a partir de Montevidéu. Com o tempo, o Uruguai se transformou em um hub que não apenas presta suporte, mas impulsiona o crescimento da região.

Qual é o peso do Brasil dentro dessa operação?

Um peso enorme. O Brasil é um dos mercados mais fortes de tempo compartilhado na América Latina e um dos que mais crescem ano após ano no mundo. Consequentemente, quase metade da nossa operação é dedicada a atender os associados brasileiros. Isso significa que aproximadamente 40% de nossas interações ocorrem em português.

Agora, quando digo português, não me refiro a um “português funcional”: estou falando de português nativo ou bilíngue, com um nível de comunicação que atende às expectativas do cliente brasileiro, que costuma ser bastante exigente nesse aspecto. Hoje temos mais de 150 consultores com esse nível de idioma, algo que não se encontra em outros países da região — exceto o próprio Brasil. Conseguir esse volume, com esse padrão, é algo que o Uruguai oferece de forma quase única.

Além disso, daqui conseguimos entender muito bem as dinâmicas de cada país onde operamos. O comportamento do viajante mexicano não é igual ao do argentino, nem ao do brasileiro ou do chileno. As temporadas, as preferências, as formas de comunicação — tudo muda. E a partir do Uruguai desenvolvemos uma sensibilidade muito refinada para atender essa diversidade sem perder consistência. Isso é fundamental em um negócio onde a experiência do cliente é central.

Quais fatores explicam que a RCI tenha escolhido o Uruguai há mais de duas décadas — e por que essa decisão continua sendo acertada hoje?

Quando analisamos a história da RCI no país, a explicação não está em um único motivo, mas na combinação de elementos que, juntos, geram algo muito difícil de replicar. No nosso caso, foram três dimensões que se retroalimentam e que continuam tão relevantes quanto no momento em que a empresa decidiu se instalar aqui.

A primeira tem a ver com o talento. Para uma operação como a nossa, com grande peso do mercado brasileiro, encontrar em um único país mais de 150 pessoas com português nativo ou bilíngue é um diferencial inexistente na região. E não falo apenas do idioma: falo da qualidade de comunicação, da facilidade para entender nuances culturais, do profissionalismo. É algo que o Uruguai oferece de forma muito consistente.

A segunda dimensão é o regime de zonas francas. Não se trata apenas de um conjunto de benefícios fiscais — que obviamente ajudam — mas de um marco operacional muito bem ajustado, com regras claras, procedimentos que funcionam e um ecossistema que acumulou know-how ao longo dos anos. Para uma empresa de serviços, sem plantas ou maquinários, ter processos que fluem com essa clareza é fundamental.

E o terceiro fator, que para mim é tão importante quanto os outros dois, é a estabilidade do país. Quando falo em estabilidade, refiro-me a algo que se sente no dia a dia: regras que não mudam de uma hora para outra, instituições que funcionam, um clima de previsibilidade que permite planejar. Nestes 20 anos, não tivemos um único episódio que nos fizesse duvidar da continuidade da operação. Mesmo em momentos críticos no cenário global ou regional, o Uruguai manteve uma solidez que hoje vale ouro para uma multinacional.

A RCI opera há duas décadas no parque. Que diferencial você encontra em Zonamerica?

Para nós, Zonamerica sempre foi muito mais do que um parque de negócios. É um ecossistema muito completo, onde cada detalhe é pensado para que as empresas possam operar com padrões internacionais. Isso fica claro na infraestrutura, que é de altíssimo nível, mas também no funcionamento cotidiano: áreas comuns bem cuidadas, segurança, espaços modernos, academia, atividades para os colaboradores, até os afters organizados periodicamente. Tudo isso gera um ambiente de trabalho muito profissional, mas ao mesmo tempo agradável.

E existe também um aspecto mais estratégico, que às vezes não é perceptível à primeira vista. Todos os anos recebemos executivos de hotéis de vários países que vêm capacitar nossa equipe ou participar de reuniões. E a experiência que eles têm ao chegar a Zonamerica é sempre a mesma: surpresa. Desde o momento em que aterrissam no Uruguai e chegam ao parque, encontram um nível de qualidade e eficiência que não necessariamente esperavam. Isso beneficia tanto a RCI quanto o país. A imagem que levam do Uruguai é extraordinária, e esse impacto reputacional favorece a todos nós.